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A Arte de Folclorear

Por Cléia Viana - parintinense e torcedora apaixonada pelo Garantido

02/07/2023 às 15h28 Atualizada em 02/07/2023 às 15h55
Por: Redação
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Simone Brandão
Simone Brandão

Ouço, desde sempre, que lá pelos idos de 1913 nascia nosso Boi Garantido. É verdade que nasceu dentro do seio de uma família religiosa, os Monteverde, numa Parintins que paulatinamente crescia com uma economia voltada para o comércio de estivas, couros de animais, comercialização de castanha á época chamada “do Pará”, por sua abundância naquela região, pela juta e pelo ir e vir dos barcos-motores em viagens de regatões. Era um boi de Promessa, criado por Lindolfo Monteverde como uma brincadeira e que jamais pensou que fosse expandir até tornar-se distante, dispare e inacessível à sua família.

Elementar! o tempo avançou e de sua dita criação aos dias de hoje passaram-se 110 anos, o que torna impossível querer que aquele folguedo, muito bem-criado por Lindolfo, ainda brincasse nos terreiros dos vizinhos.

 A evolução das Ciências, das Tecnologias também alcança a Arte, pois, decerto, fomos construindo a história do Folclore existente em Parintins com muita arte e tecnologia, além da participação fundamental do poder público, da empresa privada e, principalmente, da comunidade local que a todo momento apostou e contribuiu sobremaneira com o crescimento meteórico dos Bois Bumbás. Não é raro ouvir que a festa dos Bois não é “mais” do parintinense, o que soa a mim como uma verdade. Isso porque soltamos a corda, uma vez que há alguém (ou alguéns) pagando a festa, só nos resta termos sido transformados em “convidados por adesão”, ou seja, aquele que paga para assistir o evento que criou e que faz acontecer.

O tempo da festa para o parintinense serenou há anos, quando ainda não vendíamos “a alma ao diabo” (para me fazer valer de velha expressão brasileira). Hoje vendemos a mão de obra, o serviço, a criatividade, nossos quartos, nossas camas, nossos lugares no entorno de nossas mesas, saímos de nossas casas para deixar o estranho habitá-la por uma semana que seja, e por um valor muito maior que 30 dinheiros, aliás, Judas certamente morreria de inveja!

Então, porque ainda dizer que a festa não é para parintinense? Se vendemos nosso lugar mais sagrado que é nossa Casa, enquanto a cidade incendeia? Ora, não há o que reclamar visto ao que se quer: atirar a isca para o peixe morder num rio piscoso, o resultado óbvio é a farta pescaria. Esse é o preço que se paga: ou se assiste a festa ou se ganha dinheiro. As duas coisas já vimos que a física não nos permite, posto que dois corpos não ocupam o mesmo espaço e ao mesmo tempo. Sorry!

Limito esse texto às questões que muito escuto, mas, principalmente, às apresentações dos Bois Caprichoso e Garantido na arena do Bumbódromo, principalmente daquele que amo e pelo qual torço - o Garantido -, para que tenha o mesmo nível de apresentação nessa disputa feroz, que se faz valendo décimo a décimo, ponto a ponto e é capaz de estourar a veia mais forte de um coração apaixonado.  

Vários conceitos sobre Folclore nos regem, usarei o de Lima (1915 – 1987), com o qual afirma que na Inglaterra  e na Itália a base fundamental dessa Ciência, considerada  como a “Ciência das Antiguidades Populares”, é a Tradição  e segue “acrescentando que não se concebe Folclore sem esta característica”, cuja presença se faz nas classes sociais mais humildes ou superiores e esclarece, ainda, que “seu terreno mais rico e fértil é o representado pelos pastores e camponeses, pelos campos e aldeias, que são oásis sagrados da herança  de nossos antepassados, longe das correntes da modernidade que circulam nas metrópoles e nos grandes centros cosmopolitas... e compreende tanto a cultura espiritual quanto a material”. Dito isto, observo que num esforço hercúleo os dois bois tentam manter-se conectados com essa Tradição, ao mesmo tempo em que seguem sendo dragados pelas cintilas luzes da contemporaneidade, e como só há dois bois em competição, mais uma vez recorro às leis da Física e aos princípios de Arquimedes – Empuxo (impulso por uma força igual ao peso do fluido deslocado pelo objeto) e reduzo a quase nada o significado dessa Lei para centrar a  disputa bovina em Parintins, pois é a pressão  que um boi sofre por outro, com o violento julgamento que é feito entre os Bumbás, quando um não se assemelha ao outro dentro da arena.

No plano popular, vimos que as torcidas ou galeras que mantém elevado valor na disputa, cantam e dançam acreditando que seu bumbá será o campeão, entorpecidas pela Festa e distantes dos bastidores de cada “nação” – Azul ou Vermelha, não sonham nem com a sombra da realidade que cerca cada uma das Agremiações, apenas esperam o melhor.

Saindo um pouco da seara da paixão que nos cega, é fácil encontrar nos dois Bumbas “traços” xifópagos, posto que compartilham de uma parte do “mesmo corpo” e são regidos e submetidos um ao outro por um só Regulamento e pelas mesmas leis da partilha de igualdade, ou seja: são herdeiros das mesmas quantias pecuniárias, recebendo, em tese, os mesmos valores para apresentarem-se... e para pôr aí.

 Em Bourdieu, vemos que “O amor pela Arte, mostra-se como o coração obedece à razão, pois desvendam-se as condições sociais de acesso às práticas cultivadas, fazendo ver que a cultura não é um privilégio natural, mas que seria necessário e bastaria que todos possuíssem meios para dela tomarem posse para que pertencesse a todos” (2003, p. 9), a diferença que há entre os corpus dos bumbás, a partir do momento da separação é a Gestão. Por isso voltamos novamente ao estado atual do Regimento Interno  que declara que o mandato do presidente de cada  agremiação tem a duração de um triênio, ou seja, tempo suficiente para arruinar qualquer um dos dois Bois, num processo de regressão; ou de ascendê-los ao podium máximo, o que vai depender muito das intenções particulares de cada presidente e da menor ou maior cobrança e fiscalização de seus eleitores, de suas “nações”, dos patrocinadores e, principalmente, do maior investidor: o Estado, este que quase sempre cede aos clamores dos presidentes endividados e quase enlouquecidos em busca de mais recursos financeiros.

Permito-me dizer que já há algum tempo, meu boi Garantido vem sangrando não só pela sua língua extirpada para alimentar o desejo da grávida Mãe Catirina, mas por muitos “pais Francisco” que o atacam, vilipendiando-o sem dó nem piedade, sem sequer lembrar da força espiritual que o pajé possui para fazer com que este pobre animal de pano possa se reerguer. Registro com maior veemência algumas gestões, e esta em particular, que não atacou somente aos seus recursos materiais e financeiros, mas atacou e feriu fundo o espírito competitivo de toda a Nação vermelha e branca, não deixando “o necessário em si”. Para confirmar essa afirmativa sigo citando Hegel para quem “o necessário em si nada mais é, portanto o divino, concebido não como um deus pessoal e manipulador dos destinos, mas como o movimento da história tendendo ao seu próprio fim, isto é, à liberdade efetiva” (2003, p.31).

Em vista disso, e sem liberdade de se apresentar digno e do tamanho da Festa que Parintins e seus honrados visitantes merecem,  e do tamanho e grandiosidade que ele tem, dou-me a liberdade de fazer um alerta em nome dos torcedores do boi Garantido: Gestores, não sigam com a astúcia de achar que por três anos podem se investir do poder e adonar-se desse bem cultural que é constituído pela alma do povo; não coloquem nossa prenda em risco e sujeita a comparações terríveis e a graves palavras de escárnio por seus próprios torcedores, e ainda pior, pela exagerada compaixão que o Contrário diz sentir a nos ver apequenar. Neste momento é próprio não cobrar do torcedor uma mudança geral na administração do Garantido, posto que todos ora labutam para pôr o Boi na arena, em mais uma noite de competição e estão tirando de si o necessário para conseguir, ao menos, a sobrevivência de um segundo e último lugar, visto que o bicampeonato dos azuis é quase declarado, embora quisesse estar errada!

Compreendamos, pois, que a hora décima seja feita com a unção do nardo e óleo santo para a cura definitiva de gestões de golpes. Não queremos jamais competir rés-do-chão, queremos gestores que não sobrecarreguem itens individuais que tiram de suas próprias entranhas a energia mais profunda da alma para superar tamanha falta de comprometimento; não queremos ver uma Galera que sofre, mas que aceita a pequenez das apresentações com garbo e que se agita e emana a energia que a gente gosta de ver e sentir: Amor! Esse item sim, se auto supera do pouco ou nada apresentado na arena.

Lamentável, porque como gosto de dizer, o Garantido é Tradição; ou melhor, gosto de saber pertencer a essa Tradição, contudo gosto do Belo no sentido estético, daquilo que me enche a alma e os olhos, tal como o conceito de Belo que Suassuna (1927-2014) traz como “aquele tipo especial, caracterizado pela harmonia, pelo senso de medida, pela fruição serena e tranquila – o Belo chamado clássico, enfim.” (2005, p. 22).

Enquanto isso, o que faz uma boa gestão? Entrega à sua Nação aquilo que ela espera, convence o público e quiçá o jurado, digo quiçá por nunca entender o “julgo do julgador”. Muitos dirão que estou em favor do Caprichoso, mas eu bem sei que reconhecer nossos erros faz parte de uma vitória maior, e se na primeira noite já foi difícil a apresentação, o que se pode esperar de um Boi que sofre pressão moral e física desde muito antes do início da competição final? Não, não se supera em 3 noites o sofrimento de alguns anos. Teremos de ter muita paciência para ver essa reconstrução e a vitória, e não falo somente da física, falo da reconstrução moral e espiritual o que levará alguma soma de tempo. Para mim, seria injusto de minha parte calar-me.

Aqui, posso dizer, tenho meu lugar de fala, pois, originalmente parintinense, nascida na baixa da Xanda ou do São José, onde meus amados pais tiveram seu lugar ao solo, ali mesmo onde um dia uma faixa de terra foi deles a qual mais tarde passou para o Pastor Lessa e hoje já nem sei a quem pertence, ali eu fui criança acostumada a pegar o leite nas terras alagadiças que ficavam quase em frente a nossa casa, na fazenda do velho Chico Andrade. Sou de fogueira afilhada de Osmarina e Marçal que também, como meus pais, já subiram aos céus, mas por sorte seus filhos ainda moram por aquelas bandas. Então, assim digo por que posso! renovemos de imediato a direção do Boi Bonito, retiremos de circulação toda a súcia que constitui a presidência do “Boi Branquinho”, pois queremos viver a Arte de Folclorear, respirando novos ares, com contas pagas, com artistas criativos, com conversas esperançosas, com a elegante disputa de arena onde o Belo prevaleça. Queremos viver a rivalidade histórica com estórias e lendas do sem fim, e principalmente, com o dinheiro de patrocinadores e do Estado investido no nosso Boi, que todos possam ser e estar embalados pelas toadas de boi bumbá. De antemão peço desculpas aos bons que ainda seguram essa gestão, eu sei que vocês entraram nessa por amor à camisa, mas vamos abrir o relógio e mudar o tempo para constituir uma nova história, com pessoas sérias, idôneas, competentes e comprometidas, eu sei que não depende só de vocês, mas os Associados dessa vez têm que acordar, basta de passar vergonha na nossa casa, na frente de convidados e “para o mundo ver! Basta!

 Cléia Viana - é parintinense e torcedora apaixonada pelo Garantido.

 

Bibliografia Consultada:

SUASSUNA. Ariano. Iniciação à estética. 7ª Edição. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio. 2005           

BRAS. Gérard. Hegel e a Arte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda. 2003

BOURDIEU. Pierre. O amor pela arte – Os museus de arte na Europa e seu público. 1ª Edição. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo: Zouk. 2003.

LIMA. Rossini Tavares. Abcê do Folclore. 7ª Edição. São Paulo. Editora Martins Fontes, 2003.

 

 

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